Editora Reflexão

Armínio - Um estudo da reforma Holandesa

Autor(a): CARL O. BANGS 

ISBN:9788580881523

Páginas: 448

Formato: 16,0x23,0

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PREFÁCIO À EDIÇÃO ESTADUNIDENSE

 

Jacó Armínio foi um ministro reformado holandês e professor de Teologia do final do século XVI e início do século XVII. Sua carreira não foi diferente de muitos outros de sua época — anos de aluno sob os principais teólogos da época, serviço como pastor, anos finais como professor de jovens ministros. Ele poderia ter passado desapercebido e ser logo esquecido. A tranquilidade, todavia, não era seu quinhão na vida; nem a obscuridade, seu quinhão na morte. Durante os seus últimos seis anos, ele se tornou o foco de atenção da vida nacional holandesa. Ao seu redor, encolerizavam-se não apenas os debates dos teólogos, mas também as questões nacionais de política externa, guerra e paz, comércio mundial e a relação entre Igreja e Estado. Após sua morte, por três séculos, parecia que todo o protestantismo não luterano foi dividido entre arminianos e calvinistas. Na Inglaterra, eles eram os “prelatistas” e os “puritanos”. O metodismo primitivo contou tanto com estilos arminianos quanto calvinistas. A história eclesiástica estadunidense viu debates prolongados e amargos entre os dois partidos. Na própria Holanda, os Remonstrantes preservaram uma tradição arminiana de tolerância religiosa em face do calvinismo tradicional.

Hoje, mesmo onde os rótulos estão esquecidos, essas divisões do passado podem ser detectadas nos sutis hábitos da mente teológica. Debates do século XX entre anglo-católicos e evangélicos, entre metodistas e batistas, ou entre liberais e neo-ortodoxos não aconteceram sem ecoar os primórdios do século XVII, quando Armínio e Gomaro debateram as questões de graça, livre-arbítrio e predestinação, em Rapenburg em Leiden. O ressurgimento da teologia da Reforma após a Primeira Guerra Mundial explicitamente suscitou muitas das velhas questões, com parte do velho tom. A pesquisa histórica que acompanhou aquele movimento redescobriu Lutero e Calvino e seus amigos, e posteriormente uma onda de pesquisas trouxe à luz os Radicais. Armínio, que também foi um dos reformadores, não nos está disponível. Este livro é uma tentativa de trazer equilíbrio à pesquisa da Reforma ao reapresentar Armínio ao mundo teológico moderno que tão frequentemente sente sua influência.

Pode-se esperar que as avaliações de Armínio e seus seguidores variam com as simpatias dos observadores. Um escritor do século XIX o enxergava como o maior dos três grandes teólogos da igreja. Atanásio entendeu Deus, ele disse; Agostinho entendeu o homem; Armínio entendeu o relacionamento entre Deus e o homem. Mas tal onisciência hegeliana não fica sem seus desafiadores. Um calvinista inglês que sabia como ofender, disse de maneira sucinta: o arminianismo é a religião do senso comum; o calvinismo é a teologia de São Paulo.

Podemos contar que a verdade não é tão nítida. Chegar à verdade não tem sido fácil. A última edição da “Opera” reunida foi em 1635. Em holandês, a situação ainda é pior: apenas uma pequena fração de suas obras já apareceu em holandês, porém nenhuma desde de 1617, exceto sua “Declaração de Sentimentos”, reimpressa em holandês antigo in 1960. Ele tem estado mais acessível em inglês, principalmente desde que a velha edição das “Works” [As Obras de Armínio] foi reimpressa em 1956. Até onde sei, não há coisa alguma em alemão, nem em francês.

Para muitos que o leram em uma das três línguas, todavia, ele é um enigma. Alguns calvinistas, descobrindo que seus escritos não produzem as heresias que esperavam, acusaram-no de ensinar heresia em segredo, heresias não publicadas. Muitos arminianos, considerando-o muito calvinista, desistiram dele, reputando-o como um pensador transicional, um “precursor” de uma ou outra pessoa — Simão Episcópio, Phillip van Limborch, ou João Wesley.

O problema para o mundo de fala inglesa é a dificuldade de adentrar o mundo holandês no qual Armínio viveu. Ele não nos está facilmente acessível. Para onde podemos ir a fim de encontrar um relato preciso e abrangente da Reforma holandesa? Ou, ainda, uma biografia de Armínio?

Só tivemos duas tentativas de grande escala para contar a história de Armínio. A primeira foi do escritor remonstrante holandês Caspar Brandt. Ele a terminou aproximadamente no início do século XVIII, mas ela não foi publicada até 1724 e 1725, em latim. Uma tradução para o inglês apareceu na Inglaterra em 1854 e nos Estados Unidos em 1857. Encontrar tal tradução é muito difícil. Quase todos os artigos sobre Armínio em inglês são grandemente dependentes da obra sólida, mas bem incompleta de Caspar Brandt.

A segunda biografia de Armínio foi escrita por J. H. Maronier em 1905. Ela acrescenta muito pouco à esparsa cobertura feita por Brandt do início da vida de Armínio até 1603, quando ele se tornou professor em Leiden, mas possui excelentes materiais acerca de seus anos como docente. Maronier usa muito das cartas de Armínio publicadas no final do século XVII. Mas seu livro, assim como boa parte da produção acadêmica holandesa, está em holandês, inacessível para o público de fala inglesa.

Armínio permanece, então, uma figura obscura, ou um dígito: algo que deve ser colocado na equação, mas não objeto de atenção em separado. Este livro aceita a tarefa de focar em Armínio, não como herói, não como herege, e não como precursor. E não como um dígito. Este é o problema: descobrir o homem. Armínio muito comumente aparece como uma máquina teológica, o produtor de ideias, com quase nada acerca de sua juventude, seu pai e sua mãe, seus irmãos e irmãs, seus amigos íntimos e colegas, sua esposa e seus filhos. Como ele se via? Quais eram seus valores, fracassos, frustrações, alegrias?

O próprio Armínio é parcialmente responsável por isso. A maior parte das cartas existentes consistem de tratados teológicos, com talvez uma palavra de cumprimento pessoal no término. É preciso se agarrar a cada palavra de tom pessoal. Apenas no final, quando a enfermidade e os problemas se acumularam é que ele se permite falar um tanto quanto extensivamente acerca de seus sentimentos. Ele não é como Lutero, que conta tudo. Tem sido necessário, portanto, estudar o contexto, as circunstâncias, seus amigos — qualquer coisa para se obter um indício em relação ao que estava acontecendo. Esse esforço foi feito com vigor especial quanto à fase inicial de sua vida, onde muito pouco é sabido. Para sua fase de vida mais madura existem muito mais provas. A parte inicial do livro, então, pode aparecer carregada ao passo que ela se prende a cada partícula de prova, tentando, em muitos casos, conjecturas onde faltam provas mais sérias. Para sua fase de vida mais madura a situação é relativamente diferente e pedimos ao leitor que creia que muita condensação foi feita.

Esta não é uma biografia num sentido limitado. Amsterdã era por demais intrigante; há realmente uma curta história de Amsterdã neste livro. Eu comecei a estudar Armínio e me apaixonei por sua alma mater. Isso pode ser admitido e também defendido. Armínio foi o primeiro pastor da Igreja Reformada Holandesa da maior cidade da Holanda, exatamente quando ela emergia de seu passado medieval e irrompia em sua Era de Ouro. Seu relacionamento com Amsterdã começou apenas três anos após sua Reforma. Como entender Armínio sem entender a Reforma Holandesa e sem entender Amsterdã? E onde, em inglês, é possível aprender sobre Amsterdã? Portanto, Amsterdã está aqui, a Veneza do Norte, Nova Antuérpia, a cidade construída sobre estacas, com sua história de orgulho e perseguição, fé e fanatismo, intriga, sonhos e heroísmo. Cuidado para que você também não se apaixone pelos simples, ríspidos e valentes Mendigos do Mar de 1566. Eles contribuíram muito com Armínio: dinheiro para seus estudos, conselho, um local para pregar, proteção política e, não menos importante, Lijsbet.

Para Armínio, contudo, Leiden tinha realmente a primazia. Amsterdã é bem aberta, atrevida, vigorosa, crescente. Leiden tem profundidade. Ela sofreu e suportou o terrível sítio de 1574. A lenda é que os cidadãos de Leiden poderiam ter recebido isenção e impostos como recompensa, mas escolheram uma universidade. Portanto, Leiden, no papel, e sua universidade, têm agora com quase quatrocentos anos1. Armínio foi seu décimo segundo aluno, o segundo doutor, um professor. Ele morreu na cidade, bem do outro lado do estacionamento do Pieterskerk, que na época era o cemitério da igreja. Em se tratando de cidades, é permitido amar mais do que uma. Leiden é a amada.

Incluir todas essas coisas criaram dificuldades técnicas de primeira ordem. Mauitas palavras holandesas não podem ser traduzidas para o inglês, pois se referem a um estilo de vida e organização de sociedade únicas para aquele país. É por isso que algumas palavras, às vezes, são mantidas em holandês. O leitor virá a sentir o significado delas. O problema de nomes é gigantesco. A história cobre exatamente o período quando os antigos (nomes) patronímicos começaram a desaparecer, e serem substituídos por sobrenomes. A ortografia era aleatória. Lijsbet é conhecida em alguns textos em inglês como Elizabeth Real. Ela assinava seu nome como Lijsbet Louwerensdoch.

Algum sistema de nomenclatura é adotado aqui? Nem sempre. Alguns nomes, bastante conhecidos em inglês, foram anglicizados. Para nomes de Amsterdã, a ortografia utilizada por J. E. Elias em seu grande estudo da câmara municipal de Amsterdã é adotada. O leitor pode muito bem aprender a ortografia holandesa, ou não saberá como procurar tais nomes nos índices de livros em holandês. E uma vez que para a vasta maioria das pessoas neste livro não haja uma ortografia inglesa padrão, como temos para Calvino e Beza, por exemplo, não haverá perda alguma.

Foi difícil começar a história. Um primeiro esboço iniciou com o século XIV. A história da Reforma está profundamente apoiada nos “precursores”, conforme o professor Heiko Oberman demonstrou. A história nos Países Baixos é difícil de ser condensada, pois muitos dos precursores estavam lá — Gerard Groot e os Irmãos da Vida Comum, Florêncio Radewijins e os Cânones de Windesheim, Tomás de Kempis e os humanistas. Rodolfo Agrícola, Alexander Hegius e Wessel Gansfort introduziram o aprendizado clássico no local, o qual comumente se fundia com a piedade bíblica dos Irmãos e Cânones. Desidério Erasmo de Roterdã estava lá, de maneira importante e reflexiva sobre o cenário intelectual e espiritual da Holanda, apesar de seu frequente desdém por sua terra natal. Este livro não objetiva apresentar teoria alguma sobre a influência de Erasmo na Holanda ou em Armínio, não porque a questão não tenha sido estudada, mas porque é difícil encontrar evidência.

A própria Reforma chegou à região norte da Holanda em três estágios. Por volta de 1520 houve os sacramentalistas (assim denominados porque diziam que a Ceia do Senhor é "apenas um sacramento”). Essa é uma designação indiscriminada para muitas pessoas que pregaram contra abusos na igreja. Algumas delas haviam ouvido de Lutero; outras simplesmente objetavam ao que viam ao seu redor. Havia Wouter, em Utrecht, e John Sartorius, Cornelius Hoen, John Pistorius e William Gnapheus (estou utilizando a ortografia em inglês agora), e eles tinham seguidores que sofriam com eles, pois tal prática era perigosa. Pistorius ensinou que os decretos e cânones da igreja não deviam ser considerados como pouca coisa, mas que deviam ser honrados “contanto que concordassem com a Palavra de Deus”. Armínio estava inserido nessa robusta tradição. Hinne Rode foi um deles, que ensinou Zuínglio a dizer “isto significa”. Quando foi oferecido óleo para unção a uma discípula sacramentalista, a viúva Weynken Claesdochter, no advento de sua execução, sua recusa foi áspera: “Azeite é bom para salada e para lustrar sapatos”.

Os sacramentalistas abriram caminho para os anabatistas — provavelmente muitos deles se tornaram anabatistas na década de 1530. A “heresia” deles havia saído de Zurique, onde Zuínglio finalmente rejeitou radicalismo deles, com vingança. Mas as pessoas comuns e alguns dos magistrados na Holanda a ouviram com alegria. Eles radicalizaram em 1535, tentando estabelecer, pela força, um reino em Münster, mas a força os sobrepujou. Um padre frísio, Menno Simons, tornou-se o pastor do grupo, ensinando-os a antiga piedade bíblica holandesa e os caminhos da paz. Mas a paz eles não conheceriam, pois foram caçados pelos católicos e atormentados pelos protestantes. Então eles se caçaram e se atormentaram, afastando, banindo e excomungando, até que se dividiram ao nível da impotência, por volta da metade daquele século.

É daí que a Reforma vem, mas ninguém ainda sabe como ela aconteceu. Existem todos os tipos de teorias: o gênio organizacional dos calvinistas, a mescla de um sentido de destino divino com um sentido de destino nacional. Aqui os livros de história tendem a saltar: o calvinismo aparece, Armínio quase acaba com ele, o Sínodo de Dort o restaura. Este livro se dedica à proposição de que a coisa não é tão simples assim.

Os primeiros reformadores holandeses não parecem ser, de forma alguma, calvinistas. Eles surgem do solo, aqui e ali, alimentados pela antiga piedade bíblica holandesa, não dominados pelas percepções dogmáticas, mas constantemente estimulando o povo em direção a uma purificada vida de fé de acordo com a Escritura. Um padre em Garderen, em Veluwe, começou a pregar a Reforma em sua igreja. Ele foi forçado a desmentir o que havia pregado e foi enviado a Louvain. Ele fugiu para Marburgo, mas os protestantes não tinham certeza se podiam confiar nele. Ele escreveu sua confissão, Melâncton gostou dela, e ela foi publicada como “O Manual do Leigo”, e, juntamente com a obra “Decades” de Bullinger, ela se tornou um dos principais meios de instruir o povo holandês em sua nova fé. Isso foi em 1555, antes do nascimento de Armínio.

Em “O Manual...”, Anastásio Veluano rejeitava a teoria de predestinação que já estava ventando sobre os Alpes. Especificamente, ele negava qualquer distinção entre a vontade secreta e a vontade revelada de Deus. Quando Deus diz que quer que todos os homens sejam salvos, Ele quer dizer isso mesmo, secreta e abertamente. Veluano também afirmava que a promessa divina de salvação é coextensiva à sua ordem de se arrepender e crer. Quando Deus chama um homem, trata-se de um “chamado sério”. Deus está falando seriamente. Armínio apontaria precisamente esses dois pontos quarenta anos mais tarde, e seria acusado de ser um inovador! Quanto à predestinação, Veluano disse, “Aqui devemos apegar-nos aos cristãos primitivos, que Deus eternamente decretou em Si mesmo ajudar e salvar, por Seu Santo Espírito, as pessoas que se valem de todos os meios possíveis para serem instruídos, e continuarem obedientes quando são chamados, e, semelhantemente, para se fortalecerem e confirmarem outros no caminho da salvação, os que sinceramente suplicam isso a Ele”. Armínio consideraria tal elaboração um tanto descuidada, e ele se expressaria mais cuidadosamente, mas há uma firme linha de continuidade entre Veluano e Armínio.

Veluano não estava sozinho. O povo holandês leu seu livro e o de Bullinger, e aprendeu a lição muito bem. Todos os holandeses já eram teólogos. Através de seus magistrados, eles forneciam firme embasamento para outros — Gerard Blokhoven e Tako Sybrants em Utrecht, Cornelis Wiggers em Hoorn, Gélio Esnecano na Frísia, Hermannus Herberts in Gouda, Jan Ysbrandts em Roterdã, e Caspar Coolhaes em Leiden. H. C. Rogge chamou Coolhaes de “precursor de Armínio”. Armínio teve muitos outros. Ele mesmo considerava a própria igreja da Holanda como sua precursora.

A trama se complica quando o clero calvinista e seu povo fogem das províncias do sul para o norte, expulsos pela Espanha e pelos católicos. Esses calvinistas trouxeram com eles sua energia, seu dinheiro, seus talentos, suas conexões de comércio, e um novo estilo de calvinismo, meticuloso e intolerante. Então, conforme o historiador remonstrante Caspar Brandt disse, o termo “reformado” veio a ter dois dignificados, um para os antigos holandeses, outro para os novos pregadores. Mas isso é adiantar a história.

Neste esboço de história, então, o leitor não precisará retornar ao século XIV. Ele pode iniciar onde Armínio começou, na cidade de Oudewater e ver como ela se desenrolou a partir daí.

1 N. do T.: Completados em 1975.