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ABRAÃO EM TRÊS TEMPOS - Judaísmo

Uma das figuras mais proeminentes na literatura bíblica é sem dúvida alguma a pessoa de Abraão. No âmbito da religião monoteísta ele aparece como modelo de fé para as três grandes: judaísmo, islamismo e cristianismo.
Abraão no Judaísmo
            Uma das coisas pelas quais todo israelita dos dias bíblicos enchiam a boca para falar era: “sou filho/descendente de Abraão”. Nas páginas do Segundo Testamento vamos encontrar alguns judeus debatendo com Jesus e um de seus argumentos para contestar o ensino de Jesus era que eles, judeus, era “filhos de Abraão”, o que Jesus então os confronta de forma simples e contundente: “se vocês fossem de fato e de verdade “filhos de Abraão”, fariam as mesmas obras que ele fez e creriam da mesma forma que ele creu”.
            Abraão viveu entre os séculos XVII e o século XII a.C.; depois de ter uma experiência pessoal com Deus (Yahweh) ele rompe com sua tradição religiosa (Ur dos Caldeus), e seguindo o mandato divino parte para uma terra distante. No judaísmo é quase impossível distinguir o Abraão como personagem histórico, do Abraão como modelo religioso de fé. Mais do que qualquer outra coisa ele é um, sinal teológico, ainda que seja fundamentalmente um personagem histórico.
            Certamente o texto fundamental do Primeiro Testamento mais significativo no judaísmo em relação à Abraão seja Gênesis (12.1-7), que narra o chamado de Deus para que ele deixasse sua terra e parentela (Mesopotâmia). Nesta pequena narrativa encontramos os pontos cardeais da vida de Abraão. 
            Depois de narrar todos os fatos concernentes à criação do mundo e do ser humano, bem como a chamada pré-história da humanidade (Gn 1-11), a narrativa bíblica inicia um novo bloco histórico tendo a vida de Abraão o marco fundamental. Aqui Deus deseja estabelecer uma nova relação com a humanidade por meio de Abraão e seus descendentes. Aqui temos os princípios elementares da eleição e aliança que Deus deseja estabelecer com todas as pessoas. E Deus optou por não fazer isso por meio de anjos ou quaisquer outros seres, mas através de um homem e seus descendentes. 
            Inicialmente o seu nome é Abrão (pai elevado ou grande pai). Posteriormente Deus lhe muda o nome (cf. Gn 17.4-8), ocorre com outros personagens bíblicos também, para Abraão (pai de muitos ou pai misericordioso), nome que será simbolizado nas promessas de que seria o pai de uma grande nação/povo, em função da misericórdia divina.
            A primeira ordem de Deus a ele é para que “saísse”, marcando desta forma uma nítida ruptura religiosa e social, marca distintiva de toda a história posterior. Ele sobe pelo Crescente Fértil, um caminho que vai da Mesopotâmia para o Egito, entretanto, passa habitar a região de Canaã, onde Deus deseja estabelecer uma nova humanidade. A ruptura é total: terra (cultura, língua, religião); parentela, pois a partir dele Deus fará uma nova família que incluirá não apenas seus descendentes diretos, mas todos que vierem a participar da mesma fé; e a casa de seu pai, pois em Abraão inicia-se uma nova genealogia. 
            Esse novo grande povo (goy gadol) surgirá não em decorrência do poder de Abraão, mas mediante a ação continua da bênção de Deus (te abençoarei); Abraão rompe todos os laços pois não mais voltará. Sua vida agora está nas mãos de Deus, não lhe pertence mais. Nele Deus abençoara e/ou amaldiçoara os demais povos da terra (abençoarei quem te abençoar e amaldiçoarei os que te amaldiçoar). 
            Por esta razão Abraão torna-se um símbolo de benção e maldição em relação a ação de Deus sobre a humanidade. Muitos séculos depois Moisés haverá de resgatar esta relação quando em sua recapitulação da Lei (Dt 30.19). Mas simultaneamente Abraão é o caminho para a salvação/resgate da humanidade – “em ti serão benditas/abençoadas todas as famílias da terra”. Posteriormente a mesma função de Abraão será a de Israel – berakah – bênção para todas as pessoas.
A Obediência de Abraão
            Inicialmente Abraão é um peregrino; não possui propriedades e nem poder político. Mas esta enriquecido pela revelação de Deus. Portanto, seu propósito não é tomar as nações/povos à força – através de um Império – mas ele o fará mediante sua submissão à vontade de Deus. Quem o sustentara e protegera de todos os perigos e inimigos será o próprio Deus que se constitui em seu “goel” o protetor máximo.
            A pequenez e insuficiência de Abraão é na verdade sua grande força e grandeza. Ao atender a ordem de Deus e sair, literalmente, pôr-se a caminho (Gn 12.4), Abraão dá seu primeiro passo de fé. A única coisa que Abraão têm é a Palavra de Deus, e nada mais. Aqui ele se torna o símbolo de todo crente do antigo e do novo testamento. 
            Quando foi chamado e partiu era um ancião de 75 anos. Portanto, não era um jovem sonhador e entusiasta. A promessa de uma grande descendência é dada a um homem com muitos anos (cf. Gn 15.1-2; 17.17; 18.11). A ausência de um descendente (filho) implicava que a história (vida) de Abraão teria um fim (morte) mas a promessa de Deus é vida. O posterior nascimento de Isaque demarca um “novo nascimento” para Abraão, pois no filho sua vida e história perpetuará em nova vida e nova história. 
            Torna-se também muito significativo o fato de que enquanto peregrino, Abraão vai demarcando a presença permanente de Deus, erigindo altares (mizbeah) manifestando assim sua fé monoteísta em contraste as demais religiões politeístas que estão ao seu derredor. A cada altar erigido Abraão testemunha de sua fé e gratidão ao Deus (Yahweh) que lhe havia aparecido/chamado. 
            Por tudo isso os israelitas/judeus tomam Abraão como seu “Pai”, ou seja, o primeiro, aquele que lhes deu a descendência – através do nascimento de Isaque, que cumpre as promessas de Deus (cf. Gn 12-25). Abraão é visto por eles como o pai nacional, como o iniciador de uma raça. Mas para uma compreensão correta, os israelitas/judeus devem compreender que Abraão é pai de todo aquele que vier a crer nas mesmas promessas que ele creu. Esse etnocentrismo exacerbado dos israelitas/judeus sempre se constituiu em uma pedra de tropeço para eles em todos os tempos. 
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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