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A Teologia como saber da vida

REGINA SANCHES

A Teologia como saber da vida

Resumo

A Teologia que é produzida a partir da América Latina não prioriza ser um saber teoricamente especulativo e enciclopédico, mas propõe ser também um saber da vida em realização no mundo. Vida concreta, dinâmica, interativa e criativa. Compreendemos que Deus, como autor desta vida, se revelou nela e a tornou caminho necessário para seu conhecimento. O conhecimento de Deus pela vida visa também o conhecimento da vida por Deus, tarefa a ser realizada pela Teologia.

Palavras Chave: teologia, vida, criação, diversidade, conhecimento

 

Introdução

Não é incomum a Teologia ser vista exclusivamente como um esforço acadêmico de ordenação do pensamento de determinada crença religiosa, de caráter especulativo e sem muita contribuição para a fé, Igreja e a vida em geral. Concordamos que uma teologia que se ocupa exclusivamente de especulações infindáveis, sobre assuntos que nada tem a ver com a agenda da Igreja e da sociedade, precisa realizar grandes esforços para demonstrar sua relevância, principalmente no contexto latino-americano. E o mesmo, por conseqüência, deve-se dizer sobre a educação teológica.

Todavia, não é isso que é teologia de fato. Para Justo Gonzalez entre as atribuições da teologia está a de explicar a realidade: “...o que nos oferece não é tanto uma explicação de como as coisas funcionam, ou de como se formaram, senão antes o seu lugar nos propósitos de Deus”[1]. Na América Latina, esta realidade sendo percebida de modo concreto e referente a problemas que afetam a vida de forma direta.

Uma das principais razões pelas quais buscamos o conhecimento de Deus é para o entendimento da vida e como vivê-la no mundo. Os reformadores ensinaram que a auto-compreensão humana está no conhecimento de Deus e da sua vontade. Ao conhecermos a Deus, sendo ele nosso criador, nos conhecemos como criaturas, o que nos remete para uma necessidade humana: a de conhecer a vida em seu sentido biológico e teológico, conforme Emil Brunner, como aquela força misteriosa que se põe como verdade diante de nós:

Somos forçados a procurar pela verdade que é também vida; e não podemos buscar a vida exceto a que é também verdade. ... Nós vivemos; certamente, nós vivemos. Somos seres vivos. Temos parte na vida do mundo que a biologia descreve para nós; a maravilhosa, todavia misteriosa, força que chamamos vida sustenta-nos em seu poder... [2].

Ao entendermos melhor a vida viveremos melhor, ajudaremos outros a viverem melhor e cumpriremos os desígnios do Criador. Se teologia é um saber sobre Deus, ou ao menos sua busca, e se em Deus nos auto-conhecemos, então teologia é também um saber sobre a vida.

É devido a isso que nossa teologia não deve ser orientada somente por ideologias, que as vezes são tão exclusivas que parecem ter fim em si mesmas. Deve, sim, ser movida pela consciência de que o mundo é harmônico, belo e de todos igualmente. A vida é presente de Deus, o que a torna originalmente boa e digna. Se a harmonia e beleza do mundo, a bondade e dignidade da vida têm sido comprometidas, conforme vemos todos os dias em nosso contexto, resta-nos refletir seriamente acerca disso e intervir para transformação dessa realidade. A Teologia pode servir a isso, tanto ou mais que qualquer outra área do conhecimento humano.

 

A Vida é Diversa

É preciso reconhecer que compreender a vida não é tarefa fácil. Atualmente muito se fala sobre a complexidade da vida no mundo. Essa é a idéia que a Bíblia também comunica: que ela não é tão simples, mas ao mesmo tempo é bela, intrigante e dinâmica.

A vida é diversa e a Teologia comprova isso. O relato de Gên. 2 apresenta a humanidade “Adam”, formada por homem e mulher (macho e fêmea). A ordem de Deus para denominarem os animais aponta o reconhecimento da distinção entre eles. Outro argumento teológico é a inquietação do homem diante dos diversos animais, e, ainda assim não ver algum que fosse seu igual: da raça humana. Isso revela a diversidade da vida no mundo criado por Deus, desde suas origens. A criação da mulher e a distinção de gênero também pode ser compreendida como a diversificação da própria raça humana.

O Brasil é o país da bio-diversidade. Abriga em torno de 15 a 20% das espécies animais, vegetais e de microorganismos do mundo. Os brasileiros estão acostumados a ter diariamente a variedade de vida diante de seus olhos, que se impõe através de variadas cores, formas e tipos, na fauna e na flora. A própria população brasileira é formada a partir da mistura dos povos e é também variada nas cores e tipos. Essa riqueza da diversidade em nosso país necessita ser mais bem explorada pela Teologia.

A diversidade revela, por outro lado, a interdependência da vida no mundo. Por mais diferentes que sejamos como seres vivos, não vivemos sozinhos no mundo e não nos autosustentamos completamente. O Salmo 104 faz uma das mais belas descrições dessa relação da vida em seus ambientes. Nele, todos na criação dependem uns dos outros.

Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão, e o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem. As árvores do Senhor fartam-se de seiva, os cedros do Líbano que ele plantou, onde as aves se aninham; quanto à cegonha, a sua casa é nas faias. Os altos montes são para as cabras monteses, e os rochedos são refúgio para os coelhos. (Salmo 104.14-18).

 

Outro fator a que a diversidade remete é a capacidade da vida de se refazer e se reconstituir. Este poder não está nela mesma, mas no sustento da criação pelo Espírito Santo de Deus. O Espírito Criador é o mesmo que mantém a vida no mundo e a dinamiza.  Moltmann explica que o Espírito está no mundo revitalizando-o constantemente: “Pois o Espírito Santo é a ‘Fonte da vida’, trazendo vida para dentro do mundo: vida total, vida plena, irrestrita, indestrutível, vida eterna.”[3] É esse mesmo Espírito que nos chama ao cuidado e preservação da criação em co-participação com a Sua obra. Essa é a grande descoberta de uma Teologia integradora, que a vida no mundo é diversa e interdependente por vontade de Deus, o seu criador.

Esta é outra maneira de se compreender a fé sobre a qual a Teologia se ocupa, enquanto experiência humana e de vida no mundo.

 

A Teologia  e a fé como experiência humana

Voltamos aqui ao tema da fé em relação à teologia, agora na perspectiva da vida no mundo. Se a pretensão é “teologizar” na América Latina, é necessário localizar-se eu seu contexto de vida. Sabemos que a fé não acontece no vácuo. Ela se dá a partir de algum lugar, no tempo e no espaço, com data e endereço, pois é experiência humana. O reconhecimento disso é vital para a teologia.

Precisamos ter consciência de que a América Latina não possui somente a beleza e a riqueza da biodiversidade. Há nela sérios problemas sociais, religiosos e culturais. Uma teologia contextual deve priorizar em sua agenda as perguntas mais urgentes do seu ambiente próprio.  

Outra questão é que somos parte de uma cultura extremamenta religiosa. Isso obriga a qualquer discussão sobre fé passar pelo entendimento de religiosidade e fé. Barth esclarece que a fé não é um estado humano e nem mesmo uma qualidade, isso ele chama de “religiosidade”. Fé é história que se constrói com Deus através da sua Palavra “uma história nova a cada dia”. Fé, também, não é o misterioso que vai além do racional e do inteligível:

...uma pessoa, chegada ao limite daquilo que julga ser conhecimento humano comprovado, resolve dar espaço a uma situação, a uma opinião, estabelecer um postulado, um cálculo de probabilidades, para então identificar o objeto da teologia com aquilo que supôs, postulou e considerou verossímil,  e, neste sentido, o assumir[4].

Ele acrescenta: “Claro que tal caminho poderá ser trilhado, mas ninguém deve pensar que isto seria a fé na qual poderá tornar-se e ser teólogo”.  Para Barth a fé é condição inegociável para a teologia, ela é o evento da admiração, do abalo e do comprometimento com a palavra de Deus.

A religiosidade está relacionada ao seguimento de determinada crença, obediência às suas regras, cumprimento dos seus ritos, etc. A fé, para Barth, tem à ver com o credere in (crer em), “a saber, em Deus mesmo, no Deus do evangelho, que é Pai, Filho e Espírito Santo”. Este crer além de ser cognoscitivo é evento dinamicamente histórico, pois orienta nossa vida a cada dia, nos surpreende e nos transforma.

...a palavra de Deus, provida do poder vivo do Espírito que lhe é próprio e, assim, provida da soberania que só ela possui, liberta uma pessoa dentre muitas – de modo que ela se torna liberta e pode existir constantemente para isto – para aceitar  esta mesma palavra... [5].

Esta é a compreensão de fé da qual a teologia deve se ocupar, consciente da realidade e não alienada dela. Possui cores culturais, sons e modos de ver e viver a vida. Trata-se de uma fé encarnada, como aquela ensinada por Jesus Cristo e que possui sentido nele. De fato, a única maneira possível de se vivê-la, de acordo com Steuernagel:

A fé cristã nasce e culmina no encontro vivo com o Cristo ressurreto, que carrega nas suas mãos as marcas da crucificação. Nada mais e nada menos do que isso. E, se não chegarmos a este encontro com o Cristo da cruz, tudo o que temos é movimento religioso[6].

A América Latina possui problemas político-econômicos geradores de situações sociais gravíssimas, como: má distribuição das riquezas e consequente empobrecimento das massas, precariedade dos sistemas de educação e saúde, etc. Outro aspecto que a caracteriza é a religiosidade, que é tão diversa quanto sua cultura e riquezas naturais. No entanto, trata-se de uma religiosidade mística, devota e que oferece soluções alternativas para os problemas que afetam os latino-americanos, como: consolo, alívio e esperança. Embora tais sentimentos sejam importantes e até indispensáveis para a vida e devem ser propiciados pela religião, ela deve ir além disso e oferecer respostas concretas e transformadoras para os problemas do contexto.

A fé cristã, como um experiência contextualizada, sofre as influências da religiosidade cultural latino-americana. Devido a isso ela possui a tendência de ser exclusivamente uma resposta consoladora e de alívio ao sofrimento. Sem perder essa característica ela deveria buscar também a solução desse sofrimento pela via da transformação da realidade. A teologia deve servir a isto e propor uma fé transformadora não somente do indívíduo, mas da realidade que o cerca.

 

Conclusão

            Uma Teologia que não se mostra como saber da vida, não pode pretender ser um saber sobre Deus, pois essa foi a via escolhida pelo próprio Deus para se revelar à nós, portanto, percurso obrigatório para a Teologia. Mas a vida não somente em seu aspecto religioso e espiritual, conforme determinou o dualismo moderno, mas de forma abrangente, integral e interativa. A criação, conforme relatada em Gên. 1 e 2, não foi simplesmente da matéria, mas do movimento, interrelações, enfim, da ordem do mundo. Concluímos, então,  que Deus fez a sua criação dinâmica e com possibilidades. Podemos inclusive afirmar que é uma criação criativa.

            É devido a isso que a vida é também dinâmica e criativa. Da mesma forma deve ser a teologia, dinâmica e criativa, cheia de possibilidades, ao menos a teologia que pretenda ser também um saber da vida.



[1] GONZALEZ, Justo, PÉREZ, Zaida M. Introdução à Teologia. São Paulo: Academina Cristã, 2006.  p. 16.

[2] BRUNNER, Emil. Teologia da Crise. São Paulo: Novo Século, 2000.  p. 57.

[3] MOLTMANN, Jurgen. A Fonte da Vida, São Leopoldo: UNISINOS. 2003, p. 27.

[4]BARTH, Karl. Introdução à Teologia. São Leopoldo: Sinodal. 1996. p. 64.

[5] IBIDEM, p. 64.

[6] STEUERNAGEL, Valdir. Para falar das flores.... Viçosa: Ultimato, 2002. p. 74.

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